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#2 Isso não é uma crise de meia idade

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Ano passado eu tatuei a seguinte frase na nuca: Eu te amo.

Eu não fiz nenhuma pesquisa prévia sobre qual seria a minha próxima tatuagem, das 5 que eu já tinha até aquela ocasião – e não marquei uma data específica para visitar a tatuadora que, essa sim, eu já tinha em mente. Eu decidi e pronto. O meu desejo estava claro e definitivo.

Existem muitas formas de demonstrar amor, de dizer que ama, que gosta, que se importa e cuida. Escrever, no meu caso, é a minha zona quentinha do conforto. Escrever na pele foi algo poético e subversivo; duas características que combinam muito bem comigo.

Eu não tenho memórias desde sempre de sair por aí amando as pessoas. Também não tenho memórias antigas de ter a real noção do amor, de senti-lo profundamente dentro do peito. Lembro da minha intuição, que eu teimava em não seguir. A minha família foi fragmentada quando eu ainda era bem pequena, e, no contexto de “vamos tentar fazer o melhor com a condição que a gente tem” me lembro muito mais de momentos de praticidade tipo “as coisas são assim porque são” do que de grandes momentos de afeto declarado.

Eu não pensava sobre o amor, não sabia onde ele começava tampouco terminava. Eu tinha experiências rápidas de amor, de raiva, de solidão, de inadequação, de querer o mundo, de não querer o mundo mais, e achava que tudo isso tava no mesmo pacote que a gente trazia da Max Pão várias vezes por semana. A vida é assim porque é, o amor também deve ser assim… Eu pensava.

Numa certa ocasião, há alguns anos atrás, eu fui para o Pantanal; uma experiência que eu nunca havia imaginado viver. Fui gentilmente convidada e aceitei o convite. Eu tinha um enorme apreço pelas pessoas que me convidaram, e foi fácil passar alguns dias com eles dentro de um barco estilo mini navio, num rio no meio do Pantanal.

No terceiro ou quarta dia – já não me lembro – tínhamos uma pescaria agendada. Saímos guiadas por um experiente pescador nativo, numa pequena canoa abastecida com varas de pescar, iscas e só. De repente algumas coisas começaram a ficar estranhas. Me lembro de ter sentido muito medo – estávamos distante do barco principal, no meio do rio – mas não era o medo que sinto diariamente, das coisas da vida, mas medo de morrer, o mesmo que eu sinto em turbulências de avião. Eu então percebi que estava vivendo uma turbulência, numa pequena canoa cercada de piranhas, no Pantanal. A situação, que demorou longos minutos para se estabilizar, me deixou sequelas no coração. Eu tive certeza que a morte havia chegado pra mim, que eu morreria num estado de consciência, aos 20 e poucos anos, mas morreria segura do amor que estava sentindo no peito, que eu levaria algo, e também deixaria algo. A incalculada certeza desse sentimento, me apaziguou.

 Eu poderia morrer.

Foi depois que o amor se traduziu dentro de mim – a beira de ser devorada pelas piranhas – que eu comecei a olhar a vida de uma outra forma, a buscar por essa sensação de plenitude em todas os eventos da minha existência. Eu decidi, então, viver inebriada. O sentido só existiria em pessoas-amor, trabalhos-amor, lugares-amor, comidas-amor, casa-amor; nada que não tivesse o sufixo amor, não serviria pra mim.

Hoje, aos 39 anos, com 7 tatuagens, bem feliz por ter descoberto o amor a tempo, por saber que ele existe, que é real, que eu posso me entregar nesse rio de piranhas sem medo, só tenho a dizer uma coisa: O amor me salvou, e tem me salvado todos os dias de uma vida morna de afetos, tão piegas quanto isso possa te soar.

 

Com amor, Beta

 

 

PS.: Para ver o primeiro post da série, clica aqui.

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