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#3 Isso não é uma crise de meia idade. Os números não mentem jamais.

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Certa vez, conversando com uma amiga, ela me disse: “Beta, você já reparou como todos os seus assuntos são pautados por números?” Não, eu nunca havia reparado, mas ela tinha razão. Os anos dos acontecimentos, a idade que eu tinha, o tempo de duração dos fatos… Os números são mesmo um balisador da minha memória…

Eu tinha 6 anos quando os meus pais se separaram, e só fui entender o que de fato havia acontecido, aos 14.

Aos 13 anos arrumei o meu primeiro namorado, um garoto famosinho do colégio, que, contrariando todas as expectativas, se apaixonou por mim: a menina estranha da 7 série, com a sobrancelha emendada e óculos, aquela desajeitada, que tomava tombos inexplicáveis e tava sempre com o joelho ralado. Eu me apaixonei em seguida. Namoramos intensamente por longos 3 meses, até que o garoto famosinho-marrento ficou com uma outra garota e confessou o ato. Sofri, mas confesso que me descobri bem interessante vendo aquele garoto sofrer pra me ter de volta. Boatos correram na cidade que ele estava se embebedando por minha causa.

Passei grande parte dos meus 14 e 15 anos trancada dentro do quarto, imaginando como ele ficaria caso eu pichasse as paredes, quebrasse uma perna da cama, colasse cartazes do Nirvana no teto e, por que não, atirasse pipoca pelos ares como flocos de neve. Sabendo do ataque que minha mãe daria, caso eu concretizasse meu plano, eu então dedicava minhas horas a ficar lendo revistas e livros, e escrevendo diários de sofrência intermináveis.

Meus 16 anos foram terríveis, minha mãe ficou implacavelmente no meu pé, tenho pra mim que ela tinha medo que eu engravidasse, como acontecia com várias meninas da cidade. Também perdi meu Tio preferido, cuja falta me dói até hoje. Ele me chamava de Bolacha, em virtude das bochechas enormes que eu ostentava na época.

Em 1997, aos 17 anos, eu me rebelei contra o meu próprio sistema e fugi de casa. Eu me lembro claramente de não aceitar o comportamento das pessoas ao meu redor. Arrumei uma mochila e fui pra rodoviária de Campo Belo de madrugada, à pé, sozinha, e peguei o primeiro ônibus da manhã para Belo Horizonte, com o dinheiro que eu havia furtado da carteira do meu irmão. Quando cheguei em Belo Horizonte já havia gente me esperando e a fuga teve fim. 2 dias depois voltei pra casa.

Aos 18 eu estava oficialmente morando em Belo Horizonte. Em menos de 1 ano na cidade eu fiquei com um colega de classe que veio a ser o grande amor da minha vida. Eu enfim havia me acalmado. Vivi a melhor vida na eternidade dos 6 anos que passamos juntos. Até hoje acredito que ele me deve uma cerveja por ter terminado comigo, quando decidiu estudar Medicina, e o nosso namoro perdeu o sentido pra ele. Como eu sofri…

Londres apareceu na minha frente aos 24, me causou medo aos 25, me deixou agitada aos 26. Aos 27 eu estava em Sandy, e aos 28, recém completados, eu voltei para o meu apartamento em Belo Horizonte, a cidade que havia me recebido havia 10 anos e que eu pouquíssimo conhecia.

Abri o meu próprio negócio aos 29 e, depois de 1 ano, convidei meu então namorado para ser meu sócio. O desenrolar da decisão mais equivocada da minha vida se estendeu por quase 8 anos, quando eu, finalmente, dei o grito da liberdade.

Em 2017, marcados no meu músculo do braço, assinei a minha independência. Eu nunca havia feito tanta coisa como fiz no decorrer dos meus gloriosos 37. Trabalhei feito louca; projetos incríveis vinham chegando e eu não podia recusar, dei aula todos os dias em horário integral, saí a noite pelo menos 4 vezes por semana, viajei sozinha pela primeira vez, me apaixonei por dois homens ao mesmo tempo, fiz uma Exposição. Vivi a minha liberdade plena até os 38, quando eu percebi que estava exausta de tanta vida e resolvi ficar quieta dentro de casa.

Os 39 chegaram calmos e assim tem sido. 39 anos e 4 meses de vida. Foram 17 anos caminhando segurando a mão de outras pessoas.

7 dias atrás, conversando com um amigo sobre a solidez da nossa amizade, enquanto dançávamos na sala, eu me lembrei de um poema, o único que eu sei de cor, e o recitei pra ele:

SONETO DE FIDELIDADE   

(Vinicius de Morais)

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

com amor,

Beta

(Isso não é uma crise de meia idade é uma série que eu criei aqui no blog, que contará com 12 crônicas ao longo de 2019, porque não por acaso, é o ano que completarei 40 anos, em Dezembro. Assim espero rever situações e sentimentos vividos até aqui, e convidar quem também esteja passando por uma (nã0) crise da meia idade, a refletir também.)

……….

Ps.: Isso não é uma crise de meia idade #1 – É uma melancolia boa, aqui. Isso não é uma crise de meia idade #2 – Uma quase morte-vida, aqui.

 

 


 

(Foto de Janeiro de 2018, por Karin Lasmar)

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