A educação machista é problema de todo mundo

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Recebi essa sugestão de pauta de um amigo leitor do blog e, desde então, estava pensando em como poderia falar sobre esse universo tão questionado. 

Eu poderia dizer 3 tópicos apenas e encerrar a conversa…

  • Entenda o contexto histórico.
  • Entenda a sua própria história.
  • Seja legal.

 Mas eu acredito que posso falar um pouco mais; através das minhas próprias experiências, sob o meu ponto de vista, do que eu vivo e sinto. Todo mundo tem uma história pra contar, não é mesmo?

Eu cresci num ambiente extremamente machista, mais de uma vez por dia, ao questionar a minha mãe sobre porque o meu irmão, 6 anos mais velho, podia fazer determinadas coisas e eu não, ela respondia: “Porque ele é homem”. Essa resposta, que não me dava margem nenhuma para discussão, me agonizava.

Minha mãe é a filha caçula de 5 filhos, os quatro primeiros, homens, cresceu sozinha remando contra a própria maré. Casou-se ainda adolescente com meu pai, machista, e teve que aguentar apontamentos da cidade toda quando, por bem, decidiu se separar.

O meu avô, um homem sem estudo algum, foi um grande empresário da cidade, fundou sozinho uma empresa que cresceu e prosperou nos anos 80, chamou todos os seus irmãos homens para trabalhar com ele, e deixou as irmãs de fora. Seus dois filhos, meu pai e meu tio, puderam trabalhar na empresa, o meu irmão, também. Eu e minhas primas, não. O meu avô poderia ter sido inovador e ter decidido por criar uma empresa de vanguarda, feminista, nos idos dos anos 60? Poderia, mas eu imagino que ele nem sequer sabia dessa possibilidade, não era o que ele via à sua volta. 

Ter passado a infância numa cidade do interior teve inúmeros benefícios, mas um deles certamente não foi assistir a esse show machista por todos os lados, porque na casa das minhas tias também era assim, na das minhas amigas, também. A educação machista era o aceitável, o “normal”, ninguém questionava, porque, claro, a mulher que ousasse levantar qualquer bandeira, seria prontamente taxada de esquisita, solteirona, mulher-macho, e por aí vai…

Eu saí da cidade e trouxe os questionamentos comigo. O porquê eu não poderia fazer determinadas coisas foi, muito duramente, encontrando respostas. Para o meu contentamento, fui descobrindo que eu poderia sim, fazer o que eu quisesse; dentro do meu limite de respeito e essência.

Mais adiante, adulta, percebei que estava vivendo uma cilada. Um relacionamento cujo parceiro me dizia que eu não me arrumava o suficiente, entenda-se, vestia roupas femininas,  justas, salto alto. Certa vez, usando grampos no cabelo, tivemos um programa abortado por esse motivo e voltamos pra casa. Eu lavava a louça, sempre, sozinha, porque eu queria, eu não estava sendo obrigada, segundo ouvia. Por outro lado, o meu trabalho era bem vindo e o resultado dele também. Foram vários episódios que, enquanto vivenciados, pareciam pequenos, mas que hoje, olhando com distanciamento e alívio, me despertam desprezo.

Sigo refletindo sobre as minhas próprias experiências, tentando desconstruir para construir de novo, mas sem deixar de olhar pro lado, porque eu sei, sou branca, classe média, tenho inúmeros privilégios e uma cama quentinha pra dormir. Mas e quem não tem? Quem precisa passar por abusos físicos e mentais porque não tem pra onde ir?

No livro Um teto todo seu, Virginia Wolf fala justamente sobre isso, sobre a autonomia do trabalho e do dinheiro, das mulheres perante aos homens, e cita como exemplo o caso da irmã de Shakespeare, Judith, tão talentosa quanto o irmão, teria vivido uma vida subjugada pelas tarefas domésticas e, todo o seu talento, fora desdenhado pela família. Por não conseguir ter a sua voz ouvida, recorreu a prostituição e, por fim, ao suicídio. Somente pelo trabalho e pela garantia de uma renda mensal, nos será permitido ir e vir, de e para, onde quisermos, concretiza Wolf.

As barreiras “machistas” sempre estiveram presentes na minha vida; desde a infância até aos dias de hoje. Mas, sempre as encarei como desafios, não são só minhas, são de todas as mulheres. O diferencial na minha educação foram os exemplos de vida de algumas ancestrais que conquistaram a independência econômica, mesmo exercendo os seus papéis culturais de “mães”, “donas de casa” e “esposas devotadas”.

Penso que a minha curiosidade pelos mistérios da vida, e a certeza de que haviam meios para abrir meus caminhos, me levaram a estudar…trabalhar…estudar...trabalhar…casar, ter marido “machista”, filhos e continuar  trabalhando e  estudando sempre.

Neste trajeto da minha vida o amor foi o sentimento presente em todas as minhas etapas de atuação.

Penso que para ser uma mulher forte o que é necessário é respeitar o homem, como ser humano em construção como nós mulheres também. Crescer juntos, um ao lado do outro,  auxiliando mutuamente quando necessário”.  – Me disse Maria Helena, uma amiga de 76 anos, cursando sua terceira pós graduação e ativa no mercado de trabalho.

 

Percebe-se que a tratativa está impregnada nos tempos, mas, ainda assim, é possível enxergar caminhos. A luta que antes era extremamente desigual, hoje tem se percebido mais amena, não menos desafiadora, principalmente para as mulheres que são mães, e não contam com uma rede de apoio, que é o caso da grande maioria, elas ainda são muito oprimidas pelo mercado de trabalho, como é fácil comprovar através de dados estatísticos.  Mas, felizmente, muitas empresas estão entendendo que não existe distinção de força de trabalho entre gêneros, existem pessoas dispostas a fazer diferente, e como isso é importante e providencial.

Eu não vejo a educação machista como um problema essencialmente dos homens,  não tenho horror aos homens, tenho horror é de pessoas preconceituosas, pra qualquer vertente. Eu amo os homens, tenho amigos maravilhosos e tenho irmão, que foi criado no mesmo ambiente que eu e é um cavalheiro, principalmente com as 5 mulheres que atormentam a cabeça dele diariamente. Percebo que, obviamente, a cultura, o meio, será sempre um grande influenciador, vide o que acontecia no passado, porém, passou. Não tem espaço para nenhum tipo de abuso mais, somos todos seres humanos, com naturezas distintas e devemos ser tratados como tal.

  1. Não existe o que é de homem e o que é de mulher. Existe você se decidir pelo que te faz bem.
  2. Não existe que mulher feminista não se depila. Essa mulher, feminista ou não, não se depila porque não quer.
  3. Não existe mulher ter que se comportar como princesa e homem poder andar por aí proferindo sons. Todo corpo, feminino e masculino, tem um mecanismo de funcionamento provido pela natureza, cabe ao indivíduo decidir pela discrição, ou não.
  4. Não existe empresa priorizar as carreiras masculinas porque as mulheres são emotivas demais e vão acabar engravidando. A emoção é passível para qualquer pessoa de bom coração e, se a mulher não engravidar, o mundo acaba. Avaliemos pessoas, e não sexo.
  5. Não existe tarefa de mulher e tarefa de homem, existe tarefa que precisa ser executada e fim. Entender a dinâmica que funciona pra você e pra sua família é o ponto principal.
  6. Não existe lei que diga que homem tem que trabalhar fora para prover, e mulher tem que ficar em casa cuidando dos afazeres domésticos. Sua vida, sua lei.

No final das contas, as coisas poderiam ser mais simples, se partíssemos do pressuposto que tanto o machismo quanto o feminismo, que são questões que envolvem seres humanos, fossem tratadas com o mesmo cuidado com que são tratados os embriões no laboratório, porque cada indivíduo desse, homem, mulher, têm uma história, um coração. Se todo mundo tivesse o mesmo acesso à viver dignamente, fosse aberto ao diálogo, ao empenho de encontrar soluções para a SUA própria vida, já seria muita coisa.

Não é á toa que dizem: cuide primeiro do seu lixo, e estará contribuindo para salvar o planeta.

Tomara que essa reflexão sirva para todos nós, porque tem muito homem sensível às questões das mulheres, assim como tem muita mulher machista também, a educação machista é um assunto que deve ser abordado o tempo todo, por todos nós. Que essa conversa não pare por aqui, por favor.

ANEXO:

Machismo segundo o dicionário: qualidade, ação ou modos de macho (‘ser humano’, ‘valentão’); macheza. Exagerado senso de orgulho masculino; virilidade agressiva.

Feminismo segundo o dicionário: doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade.

Muito obrigada ao amigo/leitor pela indicação da pauta tão relevante. Quem quiser ver algum outro assunto discutido por aqui, sinta-se à vontade para enviar sugestões.

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junho 3, 2019 9:27 am

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