A Garota Estranha da Turma

 

 

Antes de ter qualquer familiaridade com a yoga, ouvi diversas vezes que um dos segredos da prática, além do ritmo da respiração, é o fluxo de pensamento. Devemos não pensar em nada, simplesmente fazer as posturas até onde for possível e deixar o corpo derreter no tapete.

 

Foi então que um dia desses eu comprovei a teoria na prática, porque se eu tivesse ido de encontro aos meus pensamentos teria abandonado a aula na segunda posição, estava me sentindo a garota estranha da turma, sentimento já recorrente de outros tempos.

 

No ballet ou na educação física, atividades que eu desempenhava sem muito entusiasmo, era frequente o desencontro, enquanto o pessoal se movimentava para o lado direito eu virava pro esquerdo, enquanto todos se concentravam na aula atentamente, eu me concentrava nos mistérios dos planetas, enquanto a classe saltava em pontas suavemente, eu saltava e caía no chão feito uma carambola madura.

 

No tal dia da comprovação da aula de yoga não foi diferente, a professora disse para fazermos a saudação ao sol  –  posição clássica de toda aula –  e foi como se eu jamais tivesse ouvido aquele nome, não fazia idéia do que se tratava, meu pensamento estava resolvendo questões na lua e meu corpo por sua vez indicava um desconhecimento absoluto do movimento.

 

Eu estava conseguindo ser a garota estranha da minha própria aula particular de yoga.

 

Um feito e tanto.

 

 

(Imagem Phoebe Waller Bridge via)

O Auto Retrato – Iluminado e Contrastado – de Inès Longevial

 

 

 

 

Impressionada e impactada, essa foi a minha reação quando bati o olho na arte e na pessoa. A francesa Inês Longevial é o espelho, a criatura, a inspiração para a sua própria criação. A forma como ela trabalha o contraste da luz e sombra e a escolha das cores é exatamente Ela.

 

Soa óbvio mas pra mim isso é incrível, sobretudo quando temos convicções de criar algo para agradar os outros.

 

Se eu fosse capaz de pintar o meu auto retrato iria focar na minha boca, pintar milhares delas, a minha boca é tão minha que eu teria orgulho em desenhá-la com pincel e tinta.

 

(via)

Carel Paris e seu Modelo Clássico com Muito Borogodó

 

 

Há 4 meses estou calçando os mesmos sapatos, ou melhor, sandálias, ou seria chinelos, não sei. Só sei que a minha falta de desejo de variar se deve à minha enorme crise de identidade, talvez por conta da pandemia, talvez devido à tantas mudanças ao mesmo tempo, não sei também.

 

Só sei que quando me deparei com a Carel Paris eu senti um desejo imediato de calçar esse sapatinho vermelho exatamente assim, com uma calça jeans e uma t-shirt branca, livre de qualquer crise, e bater perna por aí, no centro de uma cidade ou numa trilha no meio do mato.

 

Nunca se sabe.

 

O que mais me chamou a atenção foi a modelagem estendida dos sapatos, deixando a ingenuidade tradicional dos modelos “boneca” de lado e trazendo um frescor very cool, não acham?

 

 

(via)