O Cotidiano Obscuro e Gracioso da Fotografia de Julie Blackmon

 

 

Eu não consigo parar de olhar para essas fotografias, acho lindo, acho surreal, acho fantástico, acho lúdico, acho estranho, acho tudo e acho um novo detalhe cada vez que olho de novo.

 

Ao ler uma entrevista com a fotógrafa – Julie Blackmon –  fiquei ainda mais curiosa ao saber que os personagens das fotos, principalmente as crianças, são todos parentes e moram na mesma cidade: Springfield. Em suas próprias palavras, o cenário perfeito, uma cidade genérica americana no meio do nada.

 

 

 

 

 

O par de tênis pendurado no fio de eletricidade, acabei de ver!

 

( Fotografias via )

Eu Não Sei Cozinhar: Charutos da Minha Avó

 

 

 

Mas a minha avó sabia, e como era boa a comida dela…

 

De todos os pratos que a minha avó fazia, um em especial, o charuto, tem lugar de destaque no meu coração e na minha lista das comidas preferidas da minha avó. Os tradicionais almoços de sábado ganhavam um gostinho especial quando a panela enorme era posta na mesa com uma infinidade de charutos dentro. Minha memória falha ao tentar resgatar se havia ali um ingrediente especial e secreto ou se os charutos eram enrolados de uma forma diferente.

 

Aparentemente era tudo normal, se avaliarmos a receita podemos, inclusive, confirmar, até o prato colocado por cima para acomodar melhor os charutos faz total sentido, mas hoje eu sei que os charutos da minha avó eram tudo menos normal, ela botava muita coisa ali que certamente não está na receita. Segredo de chefe, podemos dizer, ou melhor ainda, segredo de vó.

 

Ano passado, durante dias críticos de isolamento social, resgatei com minha mãe o caderno de receitas da vó Irene e fomos pra cozinha preparar charutos.

 

Eu nunca havia enrolado charutos antes, foi curioso, percebi que a folha do repolho possui veias semelhantes às veias de um pênis. Depois de embalar a carne moída dentro das folhas e encher uma panela de vários deles, tínhamos um bocado de pênis para o almoço e para todos os gostos: grande, fino, grosso, pequeno, molengo, forte e triste. 

 

Comi 6 pênis.

 

Com certeza minha avó não teria gostado de ouvir essa minha descrição, desculpa, vó, eu não pude evitar, é a mais pura verdade.

Estilo HYGGE de Viver

 

Uma amiga veio passar uns dias comigo e trouxe O Pequeno Livro do HYGGE para me apresentar. HYGGE é como os dinamarqueses – classificados como o povo mais feliz do mundo – chamam o seu estilo de vida. Levar a vida com foco no que é funcional, simples e confortável pode parecer óbvio em se tratando de felicidade, mas os dinamarqueses levam isso muito a sério e, ao que tudo indica, tem funcionado.

 

O manifesto do HYGGE:

 

.Atmosfera: Acenda as velas.

 

.Presença: Esteja aqui e agora. Desligue o celular.

 

.Prazer: Café, chocolate, bolos, biscoitos…

 

.Gratidão: Seja grato, quanto mais grato você for, mais as coisas acontecem.

 

.Harmonia: Isso não é uma competição, não é necessário exaltar as conquistas.

 

.Conforto: Esteja confortável, tenha o seu tempo. Conforto é tudo sobre relaxamento.

 

.Dê uma trégua: Discuta política um outro dia.

 

.União: Construa relacionamentos e narrativas.

 

.Abrigo: Sua casa é seu abrigo, sua tribo. Um lugar de paz e segurança.

 

Não custa nada aprender e incorporar, afinal, com a felicidade não se brinca. Você já conhecia o termo? Já aplica alguma coisa do HYGGE no seu estilo de vida?

 

Carta ao Terapeuta – 31/08/2020

 

 

Querido José,

 

Estou comendo e dormindo muito bem, o que é ótimo, meu apetite está voraz e o meu sono sedento. Não tenho saído de casa. Não tenho conversado com ninguém que não seja minha mãe. Minhas amigas devem estar pensando que sou indelicada por não participar de forma ativa nas conversas do nosso grupo. Se elas estiverem pensando isso elas estão certas. Sou indelicada e um pouco grossa também. Leio as mensagens e permaneço em silêncio, por vezes até poderia dizer alguma coisa, mas logo penso que minhas experiências são irrelevantes e deixo passar.

 

Faço yoga e meditação quando sinto vontade, o que tem sido quase sempre, felizmente, a menos que eu esteja sentindo dores do corpo, do contrário, agarro no tapete com vontade. Tenho visto coisas do arco da velha na meditação, fico um bom tempo imersa no escuro do meu cosmo. 

 

Continuo querendo ir morar na praia, na França, ou quem sabe em algum lugar onde eu possa criar um cavalo. 

 

Um dia desses, pendurando roupa lavada no varal, olhei pela janela, me deparei com a vista da janela por onde vejo as janelas dos meus vizinhos, e fiquei pensando. Eu sempre fico ali parada olhando, um olhar estático, gosto de ver os pequenos fragmentos de vida que me são expostos na moldura fixa que tenho diante dos olhos, e ficar imaginando sobre eles. Esse dia eu não fiquei pensando sobre os vizinhos se não na minha própria miséria. Não é possível eu ficar lutando contra a minha natureza, a qual eu tentei lutar, muito, queria ser qualquer outra coisa que não fosse eu mesma. Tenho por certo que as árvores estão contentes em ser árvores, não me passa pela cabeça que uma araucária, no seu esplendor de beleza e sustentação, fique querendo ser gente. Veja você, eu queria ser tudo menos eu.

 

Ali na janela, olhando aquelas outras tantas janelas na minha frente, aquele tanto de quadradinhos pragmáticos, onde inúmeras vezes tentei me encaixar, entendi finalmente que eu tenho alma de artista. A minha criação, seja ela qual for, tem o único propósito de sanar a minha dor, de elucidar as águas turvas da minha mente. Eu invento motivos para criar, criar qualquer coisa, inventar qualquer história, para dar vazão ao meu próprio rio, ou é isso ou morro afogada e louca.

 

Eu não tenho as grandes habilidades dos grandes artistas, eu só tenho condições de saber o que eu não tenho. Se eu fosse capaz de colocar os meus sentimentos numa tela de pintura, ou esculpir o meu desejo de amor para a humanidade, talvez sim eu pudesse ser uma grande artista. 

 

Eu sou uma artista órfã da própria arte, sou teimosa, um pedaço de intenção e nada mais.

 

Eu comecei a entender isso quando, algum tempo atrás, eu fiquei obcecada em entregar para os meus clientes mais do que o trabalho solicitado em si, eu queria entregar arte, queria algo que transcendesse o que qualquer palavra fosse capaz de dizer. Perceba como isso é bizarro, sendo que o único instrumento de arte que me é um pouco familiar são as palavras e justamente nelas não consigo encontrar respostas. Eu queria entregar sentimento, humanidade, e não sabia como fazer, o que eu continuo sem saber até hoje. 

 

Eu crio. Eu desenho palavras. Eu junto os cacos, é só isso que eu sei fazer. Podemos chamar isso de arte?

 

com amor, beta

 

(foto tirada pela Isabela Silvia, dos quadros que fiz ao longo dos últimos anos, por teimosia, e estarão disponíveis na loja deste site em breve)

Eu Não Tenho Cuidado

 

Eu não tenho as palavras mais belas

Eu não tenho o raciocínio mais articulado

Eu não tenho as vírgulas mais precisas

Eu não tenho a pausa mais adequada

Eu não tenho a história que encanta

Eu não tenho a história que inspira

Eu não tenho a história que ensina

Eu não tenho nenhuma exclamação

Eu não tenho a surpresa

Eu não tenho a empolgação

Eu tenho apenas fé na revolução

beta maia.

 

Interior do Interior

 

 

Foi quando descobri que viajar para o interior era a viagem mais louca que eu poderia fazer, de lá eu nunca mais quis partir.

 

Nota1: Foto da sala de espera do meu psicanalista. A sensação que eu tenho quando chego para uma sessão: estou conversando comigo mesma.

 

Nota 2: Trabalho feito em 2017 para a Exposição Vida Real e Poesia.