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Carta aberta aos escritores

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Queridos escritores,

De vez em sempre, me assumo pensando se vocês, especialistas em gestão de palavras, são seres de muita sorte ou de muito azar.

Nunca consegui chegar numa resposta, não sei se salvar a vida dos outros com palavras seria o equivalente à salvar com remédios, se assim fosse, escritores e médicos estudariam biologia e literatura na mesma proporção, certo? Talvez… Sigo com a dúvida, e, por assim dizer, me parece que essa dúvida é sempre o ingrediente misterioso para o resultado final. Teremos um prato de respostas apropriadas, com recheios de inquietudes, ou uma prescrição, impreterivelmente. Para qualquer que seja o caso: palavras, meu amor.

Que assim seja.

Eu coleciono seus escritos, meus queridos escritores, deveria ser mais organizada e manter todas as frases, textos, poemas, dos mais preciosos que li, num altar imaculado, mas nunca consegui, sou fruto do caos, e o que faço, quando prego meus olhos em palavras certas, é levar a mão de encontro ao peito e cavar um suspiro profundo, confesso, que, por vezes, uma lagriminha me escapa também.

Como conseguem fazer isso com as pessoas? Como conseguem dar voz ao sentimento dos outros? Ao invés de arte, a escrita deveria ser considerada um crime. Não se pode falar pelos outros, não é mesmo?

Mas a vocês a permissão foi concedida, foram absolvidos…

Se eu tenho um amigo escritor, eu não me sinto sozinha jamais, não foram poucas as vezes que cheguei em casa depois de um dia difícil e me socorri nas palavras de outrem. Não foram poucas as vezes que escolhi o sentimento do outro para explicar o meu. Foram infinitos os casos que parafraseei, famosos e anônimos, na tentativa de botar emoção numa história que naufragava.

Eu já estive em situações onde eu não sabia o que dizer, em eventos sociais principalmente, onde é percebido que as pessoas não estão tão preocupadas com a aparência das palavras.

Em todas as situações estranhas nas quais me meti, eu procurei por você, meus escritor dono de todas as respostas, em forma de livros, periódicos, magazines, frases soltas também, para conversar comigo em silêncio. “O incrível mar de palavras”, ou “As ondas que quebram em textos mágicos”, poderiam ser títulos que eu certamente procuraria.

Eu tenho alergia a cheiro de mofo, algo que me incomoda mesmo, meu olho lacrimeja, um ataque de espirros vem em sequência, e o ar me falta grave, porém, o cheiro de mofo que exala de suas palavras antigas me seduz e embriaga fortemente.

É quando me percebo viciada e rendida, entregue plenamente ao que me possa acontecer depois: uma cartela de antialérgicos e um coração sobressaltado, pelo mofo sim, mas sobretudo pelo efeito, muitas vezes alucinógeno de suas palavras.

Ouvir conversa alheia é algo que tenho certa prática, de tanto procurar por ti, acabei adquirindo habilidade. Contudo, ouvir conversas de pessoas que colocam vírgulas, usam palavras de viés, pausam longamente digerindo cada pingo, acento e travessão, é algo que já perdi o controle faz tempo. Por contrabando, aprendi alguma coisa de história, filosofia, arte, amor, já viajei pra vários lugares e vivo em estado de alerta ansiando por cada destino novo.

Que assim seja a próxima conversa alheia.

Sigo colada em seus passos, escritores do bem, usufruindo da graça de poder tê-los por perto.

Um mar de palavras, ah, ele não seria suficiente para dizer como eu amo vocês, mas ainda assim espero que consigam imaginar. Eu realmente espero. Eu realmente amo.

(Fotografia Henderson Moret)

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