Cartas

Carta ao Terapeuta – 31/08/2020

    Querido José,   Estou comendo e dormindo muito bem, o que é ótimo, meu apetite está voraz e o meu sono sedento. Não tenho saído de casa. Não tenho conversado com ninguém que não seja minha mãe. Minhas amigas devem estar pensando que sou indelicada por não participar de forma ativa nas conversas do nosso grupo. Se elas estiverem pensando isso elas estão certas. Sou indelicada e um pouco grossa também. Leio as mensagens e permaneço em silêncio, por vezes até poderia dizer alguma coisa, mas logo penso que minhas experiências são irrelevantes e deixo passar.   Faço yoga e meditação quando sinto vontade, o que tem sido quase sempre, felizmente, a menos que eu esteja sentindo dores do corpo, do contrário, agarro no tapete com vontade. Tenho visto coisas do arco da velha na meditação, fico um bom tempo imersa no escuro do meu cosmo.    Continuo querendo ir morar na praia, na França, ou quem sabe em algum lugar onde eu possa criar um cavalo.    Um dia desses, pendurando roupa lavada no varal, olhei pela janela, me deparei com a vista da janela por onde vejo as janelas dos meus vizinhos, e fiquei pensando. Eu sempre fico ali parada olhando, um olhar estático, gosto de ver os pequenos fragmentos de vida que me são expostos na moldura fixa que tenho diante dos olhos, e ficar imaginando sobre eles. Esse dia eu não fiquei pensando sobre os vizinhos se não na minha própria miséria. Não é possível eu ficar lutando contra a minha natureza, a qual eu tentei lutar, muito, queria ser qualquer outra coisa que não fosse eu mesma. Tenho por certo que as árvores estão contentes em ser árvores, não me passa pela cabeça que uma araucária, no seu esplendor de beleza e sustentação, fique querendo ser gente. Veja você, eu queria ser tudo menos eu.   Ali na janela, olhando aquelas outras tantas janelas na minha frente, aquele tanto de quadradinhos pragmáticos, onde inúmeras vezes tentei me encaixar, entendi finalmente que eu tenho alma de artista. A minha criação, seja ela qual for, tem o único propósito de sanar a minha dor, de elucidar as águas turvas da minha mente. Eu invento motivos para criar, criar qualquer coisa, inventar qualquer história, para dar vazão ao meu próprio rio, ou é isso ou morro afogada e louca.   Eu não tenho as grandes habilidades dos grandes artistas, eu só tenho condições de saber o que eu não tenho. Se eu fosse capaz de colocar os meus sentimentos numa tela de pintura, ou esculpir o meu desejo de amor para a humanidade, talvez sim eu pudesse ser uma grande artista.    Eu sou uma artista órfã da própria arte, sou teimosa, um pedaço de intenção e nada mais.   Eu comecei a entender isso quando, algum tempo atrás, eu fiquei obcecada em entregar para os meus clientes mais do que o trabalho solicitado em si, eu queria entregar arte, queria algo que transcendesse o que qualquer palavra fosse capaz de dizer. Perceba como isso é bizarro, sendo que o único instrumento de arte que me é um pouco familiar são as palavras e justamente nelas não consigo encontrar respostas. Eu queria entregar sentimento, humanidade, e não sabia como fazer, o que eu continuo sem saber até hoje.    Eu crio. Eu desenho palavras. Eu junto os cacos, é só isso que eu sei fazer. Podemos chamar isso de arte?   com amor, beta   … (foto tirada pela Isabela Silvia, dos quadros que fiz ao longo dos últimos anos, por teimosia, e estarão disponíveis na loja deste site em breve)