Histórias

DOMINGO INTERMINÁVEL

 

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Cântico VI

Tu tens um medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.      (Cecília Meirelles)

“Bom dia! Passando pra te lembrar de ir comer esfirra na feira, pegar um sol, alongar e aguar as plantas”

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Foram essas as primeiras palavras que eu li no último domingo, ao abrir os olhos, lutando contra a luz da tela do celular, os olhos ainda cerrados e inchados na urgência de saber o que tinha ali pra mim. Felizmente as palavras eram boas, uma amiga querida estava me lembrando de viver, coisa que a gente esquece de fazer, as vezes…

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Tão logo entendi o recado recobrei os sentidos e dei um pulo da cama. Era cedo, eu havia dormido muitas horas, estava isenta de ressaca, com o corpo meio mole por causa das muitas horas deitada, mas tava bem. Me dirigi ao banheiro e saí do quarto chamando pela Aline, que estava em casa comigo durante o final de semana.

Aline! Você quer comer esfirra na feira, pegar um sol, alongar ou aguar as plantas? Ou, se preferir, podemos fazer tudo!

A expressão na cara dela era de desentendimento, que não durou muito, porque eu continuei falando coisas sem sentido a fim de convencê-la a se trocar e sair de casa comigo. Ela se animou.

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Apertei o botão do sétimo andar para aguar as plantas do meu vizinho que foi pra Europa e me encarregou de manter as plantas saudáveis. Eu, que devo a vida e algumas garrafas de vinho assaltadas pontualmente da casa dele, não pude negar.

Só não mencionei que tenho zero talento pra cuidar de plantas, nunca consegui manter as minhas vivas e mal lembro de tomar água eu mesma, que dirá dar água as plantas. Dia sim dia não eu entro na casa dele, vazia, olho aquele par de converse no chão, cor de burro fugido e penso porque a Marília escolheu aquela cor. Deixo a bolsa na bancada, acendo a luz da cozinha, encho a jarra com água da torneira e me dirijo para o pequeno oásis instalado naquela varanda de um apartamento do centro da cidade.

Por alguns segundos eu invejo a delícia de ter um oásis em casa, me certifico que todos os vasos, grandes e pequenos, estão molhadinhos, ameaço um diálogo tosco com as plantas, desisto, encho a jarra mais uma vez, e vou embora.

No domingo a Aline foi comigo e fizemos tudo na metade do tempo. Ela é bem rápida.

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Pegamos um carro e fomos para a Avenida Bandeirantes caminhar/alongar/pegar um sol, onde muitas pessoas, famílias inteiras, ciclistas velozes, animaizinhos, ocupam a rua a fim de se movimentarem. Ao chegarmos, tomamos um açaí que demorou 1 hora pra ficar pronto e fomos andar, do verbo divagar, que significa caminhar a passos muitos lentos, quase parando e/ou sendo atropeladas por pessoas com propósitos bem mais definido do que o nosso.

Na volta entramos no Parque, descemos uma ladeira de escada, comentamos sobre a festinha de criança (simples e genial, cheia de balão, marmitinhas e crianças eufóricas) que acontecia ali, perdemos o fôlego escadaria acima, nos alongamos nos aparelhos de ginástica ali da rua, e seguimos para o Roça Capital, que, lá dentro de mim, era o real motivo da minha andança por ali: Um café, com calma, só isso.

Pedimos dois cafés coados, não deixei a Aline beber antes de tirar uma foto, e ficamos um tempo considerável nos bancos de madeira pouco confortáveis da entrada da Loja, mas pouco isso importava, o restante do contexto tava bom. Corri na Banca de Revistas da esquina porque me lembrei que alguém havia comentado da revista Piauí comigo, no curso da semana passada o qual, de 3 dias, eu só fui em um, e, desde então eu queria comprar a revista. Comprei. 22 reais, bastante texto.

Com a Piauí em mãos, pedimos um pão de queijo, delicioso, farto de queijo, e dividimos.

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Fomos pra casa tomar banho e decidir aonde iríamos almoçar. Sem fome alguma me joguei no sofá com a idéia de ler a revista, até que a Aline se juntou na sala comigo e decidi compartilhar com ela um episódio de uma série que estou enlouquecida. Ilse Crawford é a minha mais nova musa diva plena do design e assistimos juntas, até que criei coragem pra tomar meu banho.

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Já passava das 16h quando decidimos então sair pra comer alguma coisa. Escolhemos o Café com Letras do CCBB, um sanduíche de filé com cheddar, um crepe de salmão e uma garrafa de vinho chileno que eu escolhi sem noção alguma, mas fingi costume…

Um amigo se juntou a nós e, em seguida, fomos embora, porém não pra casa, mas procurar um outro lugar pra continuar a conversa. Antes de escolher pela cervejaria CapaPreta, porque tem as melhores cervejas segundo meu amigo, ainda paramos para um pedacinho de pizza.

Escolhemos a mesa de centro do bar porque já era tarde, tava fazendo frio, o chuvisco caía do lado de fora e a música ambiente tava bem inspiradora. Não me lembro ao certo o que tanto conversamos, não lembro mesmo.

Quando nos convidaram a deixar o lugar, entramos na Boca do Forno que fica bem ali do lado da cervejaria pra comprar doce, porque, de certa forma, acreditamos que terminar a noite com açúcar seria uma ótima idéia. Sem muito critério escolhemos torta holandesa, quindim, amor em pedaços e cheeseecake. Pra que tanto doce é algo que estou me perguntando desde então.

Fomos pra minha casa, comemos vários pedacinhos dos doces, para experimentar de todos, acompanhados da última taça de vinho.

A conversa já tava arrastada, os olhos pesados de sono, o domingo havia findado e a lua tava linda de chorar.

 

2 Comments

  1. Aline

    29 de agosto de 2018 at 00:10

    Ôôô delicia de domingo! Sempre bom poder bater papo, refletir, caminhar, tomar sol, vinho, cerveja… Rsrs
    Obrigada pela recepção querida!
    Ahh ficou faltando a esfirra da ferira, que ficará pra próxima visita!
    Bjos

  2. Luiz Henrique Dos Santos Souza

    5 de setembro de 2018 at 11:47

    Por favor! escreva um livro dessa história. por favoooooooorrrrrrr!

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