Histórias

EU SÓ QUERIA ESTAR AQUI

IMAGEM

 

Hoje fez 1 mês que eu recebi uma amiga gaúcha na minha casa. Bem, ela não era exatamente uma amiga quando chegou, mas depois de 30 dias dividindo broinhas de fubá, posso afirmar que, hoje, ela é amiga sim. A Ângela gosta muito de Belo Horizonte e tem planos de mudar definitivamente para a cidade, esse mês vivido aqui foi um teste, digamos.

Sábado passado combinamos de sair, nós duas, tomar uma cerveja, conversar um pouco mais, mesmo já tendo confidenciado quase a vida toda uma pra outra em dias longos que passamos dentro de casa. Mas falar não era mesmo a condição primordial pro nosso dia entardecer feliz, era uma desculpinha. Sentamos na mesa de um bar e isso foi quase tudo. Ela fala pouco, fala forte, o sotaque gaúcho, a princípio, me fez acreditar que ela era uma pessoa de poucos amigos e grandes certezas. Eu estava enganada, não era. Eu, embora falante, tenho forte tendência ao vaganismo (deixar a mente vagar por aí… nem sei se existe essa palavra, rs) e, por isso, ficamos mudas as duas. A cena poderia ter sido um tanto bizarra, considerando duas moças sozinhas e caladas na mesa de um bar, sem olhar o celular de 2 em 2 minutos, ressalto – ela não é viciada como eu sou e eu havia esquecido o meu em casa – estávamos apenas respirando o ar do lugar e calculando os poucos movimentos exigidos para se levantar um copo. Estava tudo calmíssimo.

Busquei um(a) Sol no freezer.

Foi observando aquele cenário das outras mesas e da rua pouco movimentada do final de semana pós Carnaval que ficamos por vários minutos a fio. O contraste entre a personalidade gaúcha e o jeitinho mineiro não eram o motivo da fala inexistente, afinal, quase 1 mês já havia se passado e, como eu disse, já havíamos tido tempo o suficiente de reconhecer várias afinidades uma na outra, naquela mesa de bar, já éramos amigas de infância, com abraços encabulados, afinal, há que se respeitar a cultura alheia. O silêncio era confortante, que logo foi seguido de olhares cúmplices e risadas alternadas. Motivos para gargalhar nós duas tínhamos sobrando, e foi assim que seguimos nas próximas horas: intercalando risadas profundas com cerveja barata.

Em algum momento dessa cena, eu me virei pra ela e perguntei: Ângela, você sabe aonde eu queria estar exatamente agora? Ela sacudiu a cabeça negativamente e eu respondi: Aqui!

Ela começou a chorar.

Choros foram também uma constante ao longo do mês, eu chorei, ela chorou, o vizinho chorou. Todos os choros que toda uma vida puder suportar. Chorar é sempre bom, lava a alma, dizem.

Aquele choro do bar, que também era uma distribuidora de bebidas e estava contribuindo para o nosso consumo exagerado de álcool, foi a resposta para o que estávamos vivendo naquele momento.

Depois de pagarmos a conta, fomos para outro bar, depois para uma casa de shows de rock, depois ainda seguimos para uma outra boate.

Em todos os lugares que estivemos naquela noite de sábado, com todas as pessoas que encontramos e trocamos qualquer espécie de energia, eu só consigo concluir uma coisa:

O único lugar que eu queria estar agora é aqui.

(Nota: Ângela já saiu da minha casa rumo a Porto Alegre e volta pra BH daqui 2 semanas. Aqui realmente me parece um bom lugar…)

Ilustração: Samanta Flôor

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