“QUANDO A GENTE PERCEBE QUE O CONSUMISMO É UMA DOENÇA GRAVE”

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Quem lê o blog há mais de 2 anos sabe o tamanho do detox consumista que eu tenho enfrentado. Sempre me defendi dizendo que consumia muito porque sou uma pessoa criativa e gosto de me expressar através das roupas; o que não deixa de ser verdade, mas também não deixa de ser verdade o fato de que eu realmente comprava muito, bem mais do que precisava e deveria. Pra completar, trabalhei “inventando moda e produzindo roupas” durante muitos anos e isso fez com que o meu guarda-roupas quadruplicasse de tamanho.

Até o dia que eu surtei. Fiquei doente, com pavor de tudo aquilo. Sem acreditar como uma pessoa conseguia viver com tanta coisa e, o pior, tanta coisa inútil, guardada, cheirando mofo. Deus me livre.

Meu processo de desapego teve várias etapas, ainda hoje – bem menos que antigamente – me vejo tentada diante de uma peça baratinha ou quando estou triste demais ou feliz demais. Fatores que, invariavelmente, me faziam trazer uma sacola pra casa. Reconheço que já amadureci e aprendi muito. Não espero mais ocasião especial nenhuma pra usar uma peça de roupa, sei o valor do meu dinheiro e, ainda que eu possa mudar de estilo de acordo com o meu humor, decidi optar por seguir apenas um na hora de comprar e assim ter um armário mais coerente.

Essa longa lembrança do meu processo de desapego foi pra te contar sobre o post de uma amiga no Facebook; segue:

Quando você descobre que tem mais de 40 pares de sapato da cor preta e que usa o mesmo tênis e a mesma bota todos os dias é que você percebe que o consumismo é uma doença grave. Estou igual ao AA. Primeiro reconhecendo o tamanho do vexame, segundo fugindo de loja e terceiro recitando o mantra “hoje eu não comprei”. E, claro, meditando, porque a situação é crítica.

A dona do post é a Cátia, uma amiga que eu conheci quando morava em Londres, uma companheira em longas maratonas de brechós, charity shops e lojas baratinhas. Depois que vi esse post/desabafo da Cátia, não resisti e mandei um inbox pra ela: Preciso conversar mais com você sobre isso.

Ela topou:

A primeira coisa que eu perguntei pra Cátia foi sobre a relação dela com o consumo e, porque, ela comprava tanto? No meu caso, tenho certeza que mais do que promoções ou tendências eu comprava pra tapar um buraco; que eu pretendo tratar na terapia… A Catia me disse que a questão dela não é só consumir, remonta a sua infância quando tinha uma costureira em casa. “Todos os meses do ano tínhamos dias agendados no caderno dela. Novembro e Dezembro, roupa para ir a praia, Fevereiro e Março uniforme, Abril e Maio pijamas de inverno, etc e a programação era a mesma por anos. A minha diversão era sair com minha mãe e minhas irmãs para comprar tecidos, revistas e escolher os modelos. Gosto de coisas modernas, mesmo que sejam inspiradas em décadas anteriores, e isso implica em adquirir novas peças, acho que já é quase um vício.”

Como eu acredito que muita coisa eu aprendi com a maturidade, perguntei pra Cátia o que ela havia aprendido com o passar dos anos; e ela foi enfática: Qualidade. “Com a maturidade aprendi a dar muita importância para qualidade, não necessariamente marcas, mas roupas que tenham modelagem, usam tecidos naturais como seda, linho, algodão e couro, o que no final das contas é o produto das grandes marcas. As minhas marcas preferidas são Marni, Celine, Chloe, Valentino e as mais populares Ralph Lauren, Zara e Cos. Como o investimento é maior sempre compro peças que possam combinar com o que já tenho e que não sejam tão “datadas”.

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Um comportamento que acredito ser da grande maioria de nós mulheres é usar sempre as mesmas peças, enquanto as outras ficam encostadas. Não seria mais fácil então ter somente essas mesmas peças no armário? Eu disse certa vez que essas peças de todo dia são as minhas preferidas, aquelas que realmente dizem alguma coisa sobre a minha personalidade, enquanto que as encostadas foram frutos do impulso. A Cátia usa ao seu favor o fato de trabalhar em casa e não precisar se “arrumar” todos os dias.” A sensação que tenho é que estou de férias eternas. Quando morava no Brasil eu raramente usava tênis e havaianas, hoje passaram a ser parte do meu uniforme. Com isso as roupas e os sapatos ficam empoeirando nos armários. Alguns ainda estão com a etiqueta.”

Embora também já tenha vivido essa experiência, achei relevante ouvir o ponto de vista da Cátia sobre as diferenças de comprar no Brasil e no Exterior, afinal, ela está em Londres há quase 6 anos e desde então só compra roupas por lá. “Acho que o custo beneficio é maior. O clima frio de Londres exige roupas mais pesadas o que no Brasil é muito caro. No Brasil, gosto das roupas de festa da Printing e Mabel Magalhães, mesmo achando absurdamente caro acho que vale a pena o investimento. Sempre fazem sucesso por aqui.”

Nossa conversa seguiu mais um pouco e a Cátia me contou que está vindo para o Brasil em Fevereiro com 40 quilos de roupas para doação, mas que o seu armário ainda continua com um número impressionante de ítens.

De tudo, depois de toda essa reflexão sobre o consumo, duas palavras não me saíram da cabeça: Vício e hábito. Sim, acredito que comprar é um vício como outro qualquer e não apenas um capricho da pessoa. Hábito, porque, como a Cátia mencionou, ela se habituou a ficar sem carne há 12 anos quando se tornou vegetariana e pode criar ou substituir o hábito de ir as compras por qualquer outro. Assim como ela se habituou a substituir a carne na hora de preparar suas refeições, pode criar outra rota que não a das compras.

PS.: As fotos dos sapatos foram postadas pela Cátia no seu perfil do Facebook.

PS.: No início de Janeiro eu falei sobre o meu Armário Cápsula na Prática.

Me digam o que vocês pensam de tudo isso.

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fevereiro 3, 2016 11:11 am

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