Quantas vezes na vida você já viu um hibisco fresco?

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Meu querido amor,

Hoje eu fui pra aula de pilates, como tenho tentado cumprir pelo menos 2 vezes na semana, e obtido algum êxito. Saí da aula e passei na banca de frutas e verduras que fica na esquina da rua da minha casa, a poucos passos do pilates, pra fazer a feira da semana, e encontrei um trem que eu não sabia o que era, um tom meio uva bordô bem lindo, com pontas finas lembrando uma coroa, era austero e delicado ao mesmo tempo…

São hibiscos – me disse a Jéssica – a jovem que chega antes das 7 da manhã pra montar a barraca de frutas e verduras frescas, todos os dias, com excessão dos sábados e domingos, que eu imagino ela tomar como descanso. Jéssica tem uma tatuagem grande no braço e fez luzes no cabelo recentemente, conforme eu reparei quando um cliente a elogiou.

Cheguei em casa encantada com os hibiscos, até então meros desconhecidos. Jéssica disse que eu poderia fazer suco ou chá. A certeza que eu tinha é que eu precisava fotografá-los, antes que perdessem o viço ou virassem uma bebida confortante.

Andando de um lado pro outro dentro de casa, me lembrei da Ana, aluna nova que chegou no pilates hoje. Eu não conversei com a Ana, assim como não converso com ninguém. Eu tenho certeza que ela estava me achando antipática, mas eu estava concentrada demais segurando um peso de 8 quilos enquanto agachava desajeitadamente, para explicar que eu sou introspectiva, que necessito me manter concentrada senão perco o foco. Ana me olhava, eu me endireitava, tive a impressão que ela me tomava como exemplo. Enquanto pensava exemplo de quê, me esforçava na postura para não decepcioná-la.

Você vai vir que dia mesmo, meu amor?

O Sr. Maurício chegou, finalmente, depois de mais de 1 ano tentando, consegui um marceneiro para instalar uns módulos no meu home office. Sr. Maurício é pai da Elaine, uma colega de trabalho que eu adoro, tão simpático quanto ela, apertamos as mãos com gentileza escancarada. Ele voltará na semana que vem para executar o trabalho.

Maria Eduarda passou pela sala arrastando as pernas, a Du, minha sobrinha, jogou futsal ontem na faculdade e tomou um capote com a giganta que, segundo ela, não desgrudou das suas costas um segundo. Teve o joelho ralado na quadra de madeira, tadinha. Eu entendi sua dor, não pelo futsal, que nunca joguei na vida, mas pelo último domingo que passei arrastando as pernas dentro de casa depois de ter dançado a noite toda de sábado. Tadinha de mim, que aos 39 acredita que tem os mesmos 19 da Du.

Acho que vou separar uma bandeja de hibiscos pra você, eu comprei duas.

Ana, a moça do pilates, reclamou de dor nas costas e disse que quer ter um bebê no ano que vem. Me perguntou se eu tinha filhos, eu disse que não tinha. Ela seguiu sugerindo para a professora que queria fazer os mesmos exercícios que eu acabara de fazer. Ana, não me copia, Ana.

A luz da manhã havia partido, vou ter que esperar a luz da tarde para fotografar os hibiscos, algo dentro de mim está dizendo que vai ser a foto mais linda do mundo. Vou aguardar essa luz.

Terminei os alongamentos finais e me despedi das colegas que não são colegas, mas a Ana agora já é. Quando eu estava de partida já abrindo a porta, ela interrompeu seu exercício e, num som que atravessou o pequeno estúdio de pilates, disse: “Volta na quinta, Roberta”

Eu te liguei, meu querido, você não atendeu. Não demora.

Vou voltar, Ana, quinta é o meu dia quase fixo. E desci as escadas equilibrando as pernas  ainda trêmulas pelos exercícios, porém sorrindo por dentro.

Fui com a Du almoçar, à passadas lentas porque ela está manca, eu já tinha retomado o passo, mas caminho devagar mesmo. Ela não serviu arroz, fiquei intrigada, eu também não comia arroz, mas ela não comer arroz me deixou preocupada, ela joga futsal.

Enquanto faço a digestão vou ler um email que um aluno me enviou depois da aula de ontem a noite, uma crônica de Drummond: Os dias lindos, fala sobre os dias lindos de abril e maio.

Os hibiscos já estão lavados esperando o seu retorno, meu amor, e esperando para serem fotografados, caso você não venha, os verá em fotografia.

Antes de tomar banho e me pôr a trabalhar, reflito:

Será que alguém, nessa dureza de vida, ainda se importa com a beleza dos hibiscos?

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maio 10, 2019 12:05 pm

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