Histórias

VOCÊ CONHECE O CENTRO DA SUA CIDADE? (E O PÃO DE QUEIJO?)

BH-848

Foi no inverno de 2017, a Empresa para a qual trabalho me escalou para uma atividade em outra Unidade, diferente daquela que eu já estava habituada e, por isso, me vi diante de novas rotas, novos hábitos, e também da oportunidade de me abrir para novas experiências. Fiquei muito animada com o trabalho e com o que poderia vir em consequência dele.

A Unidade em questão fica no Centro de Belo Horizonte, no centrão mesmo, bem ali do ladinho da Rodoviária. Isso significou 1 mês do meu inverno no hiper centro da Cidade. O que, no caso, não foi problema algum, eu gosto do Centro, sempre gostei. Gosto da diversidade que ele me apresenta, gosto das cores, nem tanto dos cheiros – mas relevo – gosto das bancas de roupas expostas nas portas das lojas, gosto do movimento frenético das pessoas no eterno vai e vem. Me sinto invisível andando por aquele mar de entroncamentos, afinal, tantos são os atrativos por ali, eu não hei de ser mais um. Muitas vezes esqueço onde estou e simplesmente flano pelas ruas, completamente absorta, erro o caminho. Noutras, tento reparar em tudo, fico ávida por cada micro detalhe daquela profusão de informação; é tanta inspiração que me prende a atenção, que tenho que ficar atenta para não tropeçar, o que, eventualmente, acaba acontecendo mesmo. A música romântica em volume alto sai do bar e toma as ruas, imagino como seria passar a tarde ali, naquele bar, conversando com aquelas pessoas, almoçar arroz, feijão, carne de panela e mandioca cozida. Tomar cerveja e fumar cigarro. Ando mais um pouco e percebo um bêbado trombando no outro, de imediato eles se desculpam. Que bêbado gentil – Pensei.

A fila da lotérica é sempre grande. A fila dos ônibus na Olegário Maciel são sempre grandes também. Será que todas essas pessoas querem fazer uma fezinha? Há que horas elas vão chegar em casa? Onde elas moram? Me perco em pensamentos aleatórios sobre a vida alheia, principalmente sobre àquelas que na rua estão, e ali vivem, literalmente, fazendo parte da “carne urbana”. Chamam a atenção de alguns passantes e são completamente ignorados por outros. Sempre olho para os pés dessas pessoas, são grossos, estão imundos, cobertos por uma espessa camada de sujeira preta. Será que essa sujeira sai com banho? Banho? Provavelmente eles não estão preocupados com isso, outras preocupações, ou nenhuma, deve ser prioridade, nessa pouca e farta vida de cada dia.

Ao iniciar as atividades no Centro, ciente das minhas fraquezas, prometi pra mim mesma que não ficaria comendo besteiras na rua. Quebrei a promessa no minuto seguinte de fazê-la, eu amo comida de rua e decidi que iria comer sim. Durante esse período que passei trabalhando no Centro, eu comi pão de queijo e tomei café todos os dias, no mesmo lugar. Devo considerar que foi o pior pão de queijo e o café mais horroroso de todos que eu já havia experimentado antes. Todos os dias eu cogitei tentar um lugar diferente. Todos os dias eu entrei no mesmo lugar e pedi a mesma coisa, ou seja: Um café, que me obrigava a jorrar quantidades generosas de açúcar, e um pão de queijo, que sempre me enganava pela estética.

O que me levou praquele lugar, em primeira instância, foi a logística: saindo da empresa, virando a esquerda, ela é a terceira porta. Em segundo lugar, eu iria ali de qualquer jeito mesmo, pra passar o tempo, durante o intervalo, e ouvir a conversa alheia; especialidade da casa, diga-se de passagem. Sou realmente interessada na vida dos outros que eu não conheço.

BH-832 (1)

A Lanchonete não tem nenhum detalhe aparente que teria me atraído num primeiro momento. É uma típica lanchonete de Centro. Salgados fartos em farinha ficam expostos aos montes nas vitrines quase atingindo a calçada. Uma estratégia orgânica de marketing, que funciona, o resultado é imediato, conforme presenciei várias vezes. No balcão ficam pedaços de bolo dentro de uma vasilha de plástico com tampa. Eu gosto muito de bolo mas nunca me animei a provar um pedaço daqueles. Eu não simpatizo com vasilhas de plásticos, geralmente elas ficam abafadas, fedorentas, e acabam por passar o cheiro do plástico para os alimentos. Pode ser frescura, eu sei. Ao lado do bolo vivia um queijo minas, bem branquinho e furadinho, bonito até, 2,50 a fatia, por vezes me senti tentada a provar um pedaço, acompanhado do café, porém, uma única fatia é um terço do queijo todo, desisto sempre. Eu me satisfaria com um pedacim.

Houve uma ocasião que senti curiosidade em perguntar quem era o dono da lanchonete, queria ouvir como tudo aquilo havia começado, perguntar se ele nunca havia pensado em fazer um Projeto de Branding, abrir outras lojas, potencializar o negócio… Contudo, logo desisti, que presunção a minha, deixa o homem quieto, Roberta, ele sabe o que está fazendo. E encerrei meu pensamento.

O biscoito doce frito da lanchonete deveria estar num lugar de destaque, ele é um capítulo inteiro. Consigo imaginar seu gosto na minha boca toda vez que meu olhar se cruzava com aquela majestosa pirâmide de biscoitos doces fritos, bem ali, na vitrine do lado direito, praticamente na calçada. Tento resistir e tenho conseguido, prefiro estar a olhá-los e seguir imaginando como são, do que arriscar e poder me decepcionar. Relacionamentos platônicos alimentam a alma, melhor assim. Esqueço essa página e, finalmente, me dedico a escolher o pão de queijo menos pior do dia.

Eis que, a lanchonete também me acolheu quando vivi uma treta pessoal. Nunca imaginei que eu, nessa altura da vida, viveria briguinhas infantis com alguém, um amigo, até então. Todavia aconteceu. Esse amigo, que ora é amigo, ora não, estava na porta da lanchonete, justamente quando estávamos numa fase pouquíssima, ou nada, simpática. Não me restou alternativa se não entrar, muda – dizer o quê nessas horas? Entrei, me aconcheguei no balcão, no pão de queijo que estava especialmente gomento, e no café, que desceu mais amargo do que nunca. Paguei 2 reais pelo conforto e desconsiderei o episódio.

Sexta-feira eu estava particularmente cansada, morta, pra ser mais exata, minha tendinite no pé esquerdo latejava e ardia, uma delícia que eu não queria viver. Trabalhei a manhã toda e a tarde toda, estava aflita pela hora do intervalo. A Cris, que eu acabara de descobrir o nome, me serviu um café e um pão de queijo que eu recebi como se fossem um manjar dos deuses. Preciso diminuir a quantidade de açúcar desse café – penso todos os dias… Sobre o pão de queijo, quando eu penso que já vi de tudo, consegue ainda me surpreender: Por dentro parecia uma gelatina consistente, por fora, uma casquinha bem fina e ressecada, fazendo meu lábio colar. Não tinha gosto de nada porque goma não tem gosto. Não tinha gosto de queijo porque queijo ali não existia. Cheguei a acreditar que eu estava sendo muito exigente, ou estava sofrendo de alucinações devido ao cansaço. Nem um, nem outro, era a vida real apenas. Me sentei ali quietinha e desfrutei do meu banquete como uma rainha. Tava sozinha, mas logo o lugar se encheu de brasileiros, deu meu horário, e fui embora.

Tchau meninas!

centro3

Ei, moça! Foi assim que eu fui recebida em plena quarta-feira, um dia aparentemente normal se o universo não tivesse me pregado uma peça na terça anterior, eu ter chegado em casa as 2 da manhã e passado a quinta-feira inteira tentando articular raciocínios lógicos. Depois de ter sido recepcionada com tamanho entusiasmo, confesso que me apropriei um pouco daquela alegria. Pedi um café com pão de queijo, dei um bocejo enorme, meus olhos lacrimejaram, vi meu reflexo no espelho – Jesus, sou eu mesma? – e me concentrei no que me levara ali.

Eu queria que aquele café com pão de queijo durassem a eternidade, queria ficar escornada naquele balcão pelo menos uns 100 anos, queria que meus 15 minutos de recreio fossem congelados.

“Eu quero meu café com leite gelado” – Um Senhor interrompeu minha viagem rumo a eternidade com esse pedido que me encafifou. Eu não sabia se ele queria que o leite estivesse gelado ou se o “café com leite” estivesse em temperaturas mais baixas. Senti uma pontinha de angústia, mas ainda bem, aquele não era um problema meu. A jovem e alegre atendente, entendeu, isso é o que importa.

Depois de algumas mordidas e umas goladas no melhor, porém, pior, café com pão de queijo da região central, eu já estava finalizando minha atividade de people watching quando uma Senhora se acomodou no balcão ao meu lado, disse que não estava se sentindo bem, e seguiu com o pedido: “Eu quero o meu café bem pretinho”. Fiquei vigiando a rota daquele café a fim de entender melhor o que raios significava o tal do “café bem pretinho”. Será que a Cris vai colocar algo extra? Será esse o segredo dA Lanchonete? Quando a Cris entregou o café para a Senhora eu entendi tudo. O café bem pretinho era exatamente o mesmo café servido para todos os clientes, entretanto, para aquela Senhora ele dizia muito mais. Talvez fosse um remedinho, algum alívio quentinho que fosse acalentar o seu mal estar. Por um segundo me identifiquei com aquela situação, sobre a vontade, muitas vezes inconsciente, de buscar abraços disfarçados de café, bolo, pão de queijo… Eita vida.

Ontem foi feriado, eu tive um dia um tanto quanto diferente, poderia até dizer que foi um dia desagradável, mas não, não quero me colocar como vítima uma vez que eu caminhei com as minhas próprias pernas para tamanha esquisitice vivida. Ainda assim, sacudi o edredom e acordei super disposta, trabalhei a manhã toda em projetos interessantíssimos e isso me deu uma energia nova. Almocei e saí, rumo ao Centro, em plena quarta com cara de segunda. Preciso fazer atividade física, urgente, estou toda dura – Pensei, ao constatar que minhas pernas não queriam se mover aos meus comandos. Seria esse o resultado dos meus excessos, da minha idade, vai saber… Nesse dia tive a sensação que o intervalo não fosse chegar nunca. Pra disfarçar o relógio que arrastava, contei alguns casos para as minhas alunas, adiantei o conteúdo do curso e, incrivelmente, como se 3 dias tivessem passado, o relógio marcou 15:45.

– Oi meninas, quero um café e um pão de queijo, por favor. (E quero ficar aqui bem quieta, sem pensar em nada, só um pouquinho, pode ser?)

Olhei pra Vitamina, pro Toddy, imaginei como esse Toddy seria, me lembrei do sanduíche que um amigo pediu outro dia: “Pode colocar cogumelos?” – sorri sozinha e retornei pro ponto onde estava. Havia um pão de queijo na minha frente, que por sinal, estava péssimo. Como já era de se esperar, a casquinha fininha não tinha gosto de nada e o recheio, ou melhor, aquela goma toda, estava parecendo um elástico. Eu deveria ter pedido um pedaço de bolo…

BH-814

Quinta-feira é um dia bom, eu gosto, também foi o dia em que eu mais desejei o misto quente da lanchonete. Estou falando do misto quente no pão de sal, tostadinho, queijo derretido saindo pelas beiradas e um cheirinho de manteiga na chapa que me faria comer uns 3 fácil. Mas não, eu não comi nenhum misto quente. Novamente apostei todas as minhas fichas no pão de queijo e perdi todas elas. Perguntei pra jovem e alegre atendente qual era o “carro chefe” da lanchonete. Ela respondeu:
– “É o pão de queijo”
Cê jura?

Querida, me vê um café, um pão de queijo, e um abraço, por favor? Um café que aperta, um abraço forte, e um pão de queijo, bem, que cumpra só a função de um pão de queijo mesmo.

centro4

Estou sentindo uma cólica tão absurda hoje, que a sensação que tenho é que meu útero está sendo enforcado. Uma dor horrível, que só me faz desejar ficar deitada, dopada de Buscofem, viajando nas páginas de algum livro ou sonhando com as praias de Caraíva, que eu não conheço mas pretendo, em breve. Fica aqui a minha eterna dúvida: Onde mora a poesia das cólicas menstruais?

Como se não bastasse essa cólica dos infernos, ainda tenho que administrar minha cabeça dando loopings, uma turma de alunos na minha frente, e eu sendo assombrada pelos meus clientes via whatsaap. Para todas as situações, meu desejo de resposta seria um só: Beta está com cólicas entorpecentes, foi ali comer um pão de queijo e tomar um café na lanchonete do lado do trabalho, volta daqui há 6 meses.

Pois bem, eu não acredito na poesia das cólicas mesmo, tampouco na minha capacidade de resposta indelicada, mas magias acontecem, eventualmente. O café com pão de queijo que acabei de comer estavam deliciosos, juro!  Ou seria eu sofrendo alucinações devido às dores nas pernas e o útero latejando? Sentei no banco da lanchonete, senti aquele café “bem pretinho” me aquecendo por dentro, mordi o pão de queijo e senti vontade de chorar. Fiquei emocionada com a vida. Meus olhos estavam marejados quando me lembrei de quem eu era, onde estava, e de tudo que ainda tinha que fazer. Voltei pra sala de aula.

“Ei, Moça!”

– Meninas, até hoje vocês não sabem o meu nome? Como isso é possível?
– “Como que cê chama?”
– Cês acham que eu tenho cara de chamar como?
– “Camila?”
– Não, Camila era o nome da minha cachorra, meu nome é Roberta! (rsrsrs)

Oi Raiane! Oi Amor!

Estou bêbada de sono hoje, pra variar. Vou querer um café bem forte e, hum, esse pão de queijo aqui! – Uai, gente, vocês mudaram o fornecedor ou a receita do pão de queijo? Estou vendo um pedaço de queijo?

centro5

Dia 31 foi o último dia do curso. Apesar de eu ficar bastante melancólica com despedidas, estava animada. Combinei o batom vermelho com esmalte vermelho, vesti minha camisa de seda estampada e saí toda colorida desbravando o centro da cidade a pé. No caminho para o trabalho, bem em frente ao Mercado Novo, dou de cara com uma pessoa conhecida, uma pessoa que convivi durante muitos anos e há muito não nos víamos. Vivemos aqueles minutos de estranhamento/surpresa e seguimos nossos caminhos. Apertei o passo e o pensamento: Esse Centro me prega cada peça…

Comecei a aula com o meu “discurso da gratidão” e, por toda a simbologia do momento, eu sentia meu coração bater acelerado e minhas bochechas corarem, no entanto, ainda tínhamos conteúdo programado para o último dia.

Olhei rapidamente as mensagens do meu celular e percebi meu coração acelerar um pouco mais. Demorei uns 4 minutos para assimilar aquele “não” que eu havia recebido como resposta, ensaiei uma contra resposta, que não foi enviada ao fim, e decidi que não ficaria triste. Obriguei meu cérebro a pensar racionalmente e tomei a concentração perdida de volta, afinal, eu estava trabalhando.

O último intervalo também chegou e, óbvio, eu ansiava por ele.

Descemos o bando todo para a lanchonete, eu e as alunas, e então fiz o meu pedido: Um café, um pão de queijo e um biscoito frito, por favor.

As 18h entreguei as chaves da sala na secretária e me perdi Centro a dentro, rumo ao terraço do Othon Palace, desanuviar…

(Imagens Henderson Moret especialmente para o Beta Stories)

Leave a Reply