Cabelo (Não) é Só Cabelo

 

 

Acordei com a idéia fixa de cortar o cabelo. Tenho medo de mim quando sou possuída por alguma idéia fixa, acabo me tornando uma pessoa perigosa quando exposta ao excesso de adrenalina, enquanto não materializo ou desisto da idéia, sou uma ameaça viva. Acredito que estou tendo muitas idéias fixas atualmente para me desviar dos acontecimentos recentes e dos quais ainda hão de vir. 

 

Meu cabelo sempre foi um instrumento simbólico para todas as minhas mudanças, já experimentei o corte dos fios de tudo quanto foi jeito, desde curto e repicado – estilo MacGyver Profissão: Perigo – até comprido e com franja – no perfeito ideal francês de Brigitte Bardot. Antes que qualquer pronunciamento por mim seja feito, é o meu cabelo, sempre o primeiro a comunicar que algo mudou ou está em processo de mudança. 

 

Cabelo é só cabelo, a voz da minha cabeça repete com frequência, um apanhado de fios revoltos e embaraçados, no meu caso, mas, também em se tratando dos meus fios, eles sempre disseram um pouco mais: são a carapuça desajustada para o meu rosto de expressões infantis. Meu cabelo me deixa em situações de desconforto com as quais preciso lidar ao mesmo tempo que me esconde e me revela. Me mostra bem devagarzinho que as coisas vão se acomodar novamente. Acompanhar a mudança lenta do crescimento dos fios é ter paciência, calma e confiança, o que eu quase nunca tenho. 

 

Até então o corte do meu cabelo estava razoável, na altura dos ombros, mas estava grande demais para a vida a qual eu quero viver: na praia, perto do mar.  Eu nunca morei em cidade litorânea, o que pretendo fazer em breve, e sei que o cabelo pode me tomar um tempo que eu não quero ter para dedicar aos cuidados especiais. Por isso, cheguei a conclusão de que se ele estivesse menor, eu teria mais liberdade, e cortei, curto, extremamente curto. Admito tudo isso como uma bela de uma desculpa arquitetada para o meu próprio convencimento de que estava na hora de comunicar e registrar mais uma mudança de vida.

 

Não gostei do resultado.

 

Não gostei porque o primeiro momento é de reconhecimento. Não deposito no meu cabelo a responsabilidade integral de me deixar mais ou menos bela, busco o diferente, o desconhecido. Eu gosto do processo de adaptação, do desconforto que se adaptar a algo novo, exige. Gosto de encontrar novas possibilidades, imaginar a nova mulher que eu vou ser a partir de um novo corte de cabelo.

 

Eu vou mudar, algumas inúmeras vezes eu ainda vou mudar, o meu cabelo vai mudar também, e vou me confrontar a cada nova mudança porque o processo de transformação é este: o confronto e o encontro.

 

Neste momento estou em crise com a minha falta de identidade, mudar de vida e mudar de aparência acarreta na ausência de um ponto de reconhecimento. Se eu mantivesse o mesmo corte de cabelo e a mesma vida, por anos a fio, eu seria reconhecida sob um ponto de vista de uma criatura mais coerente, com mais segurança nas próprias escolhas, alguém que sabe o que quer e não sente necessidade de se aventurar no desconhecido o tempo todo. 

 

É o que me dizem.

 

O que eu espero com esta nova mudança? Apenas desejo o fluxo da criação contínua, a ânsia pela próxima descoberta. Não estou em busca de nenhuma linha de chegada, minha satisfação é a mudança da paisagem. O que será que vem depois? Eu não sei, mas seja lá o que for, estarei renovada para a próxima música.

 

Já estou arrependida de ter cortado, exatamente como acontece todas as vezes, mas sei que o cabelo vai crescer e eu irei novamente em busca de uma nova moldura. Enquanto isso, vou treinando o olhar sob uma nova perspectiva. 

 

Sigo aprendendo e desaprendendo, esta é a única certeza do caminho, neste momento, com o cabelo curtíssimo, o retrato de uma caipira perigosa metida à francesinha com desejos exóticos de transformação. 

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