Beta

Envelhecer Não é Pecado

    Eu recebo muito “elogio” dizendo que não pareço ter a idade que tenho e, não, eu não fico lisonjeada como talvez fosse o esperado. Já fiquei, confesso, hoje não fico mais. Eu tenho 41 anos e tantas são as marcas quantas são as histórias. Algumas mais visíveis que outras, por certo, mas todas são minhas e eu sou todas elas.   Vivemos numa sociedade que nos diz o tempo todo que devemos correr atrás de qualquer tipo de antienvelhecimento para parecer mais jovem, por mais tempo, e assim consumir mais, fazer a roda girar num eterno looping de consumo e insatisfação. Pessoas não felizes – principalmente consigo mesma – são pessoas altamente lucrativas pro mercado.⠀   Aos 41, de cara lavada, eu só desejo que eu consiga me gostar todo santo dia, me curar, pois só assim o mundo a minha volta há de se curar também.


Para Tanto Hoje, Um Dia Bastaria

Hoje eu lavei dois banheiros Hoje eu limpei e organizei o acampamento Hoje eu fiz uma sopa ruim de legumes Hoje eu me perdi na poesia de objetos cotidianos Hoje eu me senti um saco de lixo meio de saco cheio Hoje eu tomei um banho quente com notas de eucalipto Hoje eu fui abrigo para um ser que vive Hoje eu não sabia o que fazer com o hoje Hoje eu senti vontade de não ser um ser sentido Hoje se foi como todos os hojes se vão Humano demasiado   beta maia


Quinze Minutos de Intervalo

    Certa vez fui escalada para dar um curso no centro de belo horizonte e, durante os 30 dias do curso, frequentei a mesma lanchonete – devo dizer que meu pedido era sempre o mesmo: um café coado e um pão de queijo. o café era horroroso de tão ruim e o pão de queijo parecia a borracha que eu usava no colégio para apagar meus erros. ⠀⠀ ⠀⠀ Eu não me importava. Durante os 15 minutos de intervalo eu aproveitava para olhar as pessoas, variadas, escutar um pouquinho das histórias alheias que se sobrepunham ao barulho do tráfego, conversar com as simpáticas atendentes da lanchonete e reparar em cada micro detalhe daquele amontoado de informação – eles eram muitos.⠀⠀ ⠀⠀ O centro da cidade é um lugar intenso, pitoresco e revelador, assim como são as pessoas, eu, você, sempre andando rápido em direção ao próximo capítulo, tentando consertar um erro e chegar em casa. os roteiros quase nunca são inéditos, mudam-se os cenários, mudam-se os personagens, o final, cada um poderá dizer.⠀ ⠀ Talvez a conclusão dessa história seja simples como ela própria: olhar pra diversidade e se reconhecer nela.


Interior do Interior

    Foi quando descobri que viajar para o interior era a viagem mais louca que eu poderia fazer. De lá eu nunca mais quis partir.   Nota1: Foto da sala de espera do meu psicanalista. A sensação que eu tenho quando chego para uma sessão: estou conversando comigo mesma.   Nota 2: Trabalho feito em 2017 para a Exposição Vida Real e Poesia.